Benefícios terapêuticos da taurina no diabetes do tipo 2
A taurina é um aminoácido encontrado naturalmente no corpo humano e em diversos alimentos, e tem sido cada vez mais estudada e reconhecida por seus potenciais benefícios à saúde.
Atualmente, a suplementação com taurina ganhou popularidade como um complemento nutricional utilizado para diversos fins, incluindo a regulação do sistema cardiovascular, no desenvolvimento do sistema nervoso, na função imunológica e na saúde metabólica.
Além disso, a taurina exerce efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, contribuindo para a proteção das células contra danos oxidativos e inflamações.
Nesse sentido, recentes avanços científicos demonstram também que a taurina pode auxiliar no controle glicêmico, principalmente em indivíduos portadores de diabetes do tipo 2.
A taurina é um dos aminoácidos não essenciais mais abundantes no corpo humano
A taurina é um beta-aminoácido sulfuroso não proteinogênico presente no organismo, principalmente em regiões eletricamente excitáveis, como coração, retina, cérebro e músculo esquelético [1].
Sua síntese ocorre no fígado (pequena quantidade) a partir do metabolismo da cisteína. Além da síntese endógena, é possível obtê-la na ingestão de alguns alimentos, como carne bovina e aves de carne escura, e mais abundantemente em mariscos, como vieiras e mexilhões [2].
A taurina é bastante conhecida pelo seu papel atenuador em processos metabólicos e fisiológicos, regulando metabolismo lipídico, energético, modulação anti-inflamatória e ações antioxidantes [3,4].
Exerce também grande efeito na função celular, mais precisamente, na função mitocondrial. Estudos realizados em roedores identificaram que a suplementação com taurina inibe o estresse oxidativo mitocondrial induzido pela privação de glicose, disfunção mitocondrial, apoptose e estresse do retículo endoplasmático [5].
Quimicamente, a taurina é sintetizada a partir da metionina ou da cisteína. Nesse processo, a enzima cisteína dioxigenase catalisa a conversão de cisteína em cisteína sulfinato, que então é convertida em hipotaurina pela cisteína sulfinato descarboxilase. A hipotaurina é prontamente oxidada para formar taurina, podendo ser excretada diretamente ou como um conjugado com ácidos biliares [4].
A taurina como um suplemento alimentar
Como suplementação, a taurina pode ser ingerida através de cápsulas ou bebidas que sejam ricas no aminoácido. As concentrações plasmáticas de taurina no organismo passam a aumentar aproximadamente 10 minutos após a ingestão da suplementação e podem atingir o pico após uma hora do consumo [6].
Interessantemente, a taurina pode atuar modulando o metabolismo da gordura, conforme evidenciado por um estudo randomizado, duplo-cego, conduzido com 16 mulheres (oito em situação de obesidade e oito saudáveis).
Na pesquisa, as participantes receberam três gramas de taurina por dia ou substância placebo, durante 8 semanas. Ao final, foi avaliado os níveis plasmáticos do aminoácido, insulina, adiponectina, glicose sérica, marcadores de resposta inflamatória e estresse oxidativo [8].
Os resultados desse estudo indicaram que mulheres obesas suplementadas com taurina apresentaram elevação nos níveis plasmáticos do aminoácido, que estava diminuído nas não suplementadas. Além disso, a suplementação aumentou os níveis de adiponectina, melhorou o metabolismo insulínico e de glicose, reduziu o estresse oxidativo e reduziu os marcadores de inflamação TNFα e IL-6 no plasma sanguíneo [8].
Uma das possíveis explicações para os resultados encontrados pode ser devido à capacidade da taurina de induzir fatores de crescimento (FGF21 e FGF19) e concentrações de β-klotho, uma proteína transmembrana ligada a sensibilidade do organismo à ação da insulina.
Esses fatores de crescimento são produzidos no tecido adiposo e muscular esquelético, e apresentam importante papel no balanço energético corporal, diminuindo a glicemia, a insulina, os triglicerídeos, a massa gorda, o metabolismo do carboidrato e a redução de peso corporal. Níveis diminuídos desses fatores de crescimento podem contribuir para obesidade e doenças cardiovasculares [3,9,10].
Suplementação de taurina no controle glicêmico de indivíduos diabéticos
O diabetes do tipo 2 já atingiu proporções epidêmicas em todo o mundo. Dentre todos os tipos de diabetes, mais de 90% dos acometidos são do tipo 2 [11]. De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, o número de pessoas com diabetes do tipo 2 era de 225 milhões de adultos em 2017, e há projeção que em 2045 mais de 629 milhões de pessoas sejam diagnosticadas com a doença.
Além da genética, muitos são os fatores que contribuem para o desenvolvimento da diabetes do tipo 2. Dentre eles, podemos citar idade, índice de massa corporal, circunferência de cintura, sexo, etnia, baixa adesão à atividade física, tabagismo, dieta (incluindo quantidade de fibras e alta ingestão de gordura saturada), histórico familiar, pressão arterial elevada, dislipidemia e diferentes tratamentos medicamentosos [12].
Assim como ocorre em indivíduos obesos, estudos indicam que os níveis de taurina também estão diminuídos em pacientes com diabetes do tipo 2 [13]. Nesse sentido, um ensaio clínico foi conduzido em mulheres e homens diabéticos com idade entre 30 e 60 anos. O estudo teve como objetivo determinar a eficácia da suplementação de taurina nos parâmetros glicêmicos e lipídicos nesses pacientes [14].
Na pesquisa, os participantes foram suplementados com taurina ou substância placebo por oito semanas. Ao final do protocolo, foram coletadas amostras de sangue dos voluntários para avaliação dos parâmetros bioquímicos, como hemoglobina glicada, glicemia de jejum, concentração sérica de insulina, nível sérico de colesterol, triglicerídeos e níveis de colesterol HDL e LDL [14].
Em resumo, os principais resultados da pesquisa demonstraram que a taurina contribuiu para redução da glicemia de jejum e níveis de insulina, além de melhorar o metabolismo lipídico, diminuindo os níveis de colesterol LDL e aumentando o HDL [14].
Essa efetividade da taurina é reforçada por outro estudo que suplementou voluntários diabéticos com 1000 mg/dia de taurina. Além de evidenciar novamente os benefícios no metabolismo glicêmico, essa pesquisa demonstrou melhora em parâmetros de função endotelial, com diminuição de marcadores como a proteína C-reativa e o marcador inflamatório TNF-α [15].
Portanto, a suplementação com taurina para população com diabetes tipo 2 apresenta embasamento científico e pode ser considerada para tratamento adjuvante no controle glicêmico.
Porém, é importante destacar que, independentemente da terapia utilizada, deve-se associar mudanças efetivas em hábitos de vida, com a inclusão de uma boa rotina alimentar e de exercícios físicos para promover ganhos ainda mais significativos.
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Referências:
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[2] Wójcik OP, Koenig KL, Zeleniuch-Jacquotte A, et al. The potential protective effects of taurine on coronary heart disease. Atherosclerosis 2010; 208: 19–25. doi:10.1016/j.atherosclerosis.2009.06.002
[3] Haidari F, Asadi M, Mohammadi-Asl J, et al. Evaluation of the effect of oral taurine supplementation on fasting levels of fibroblast growth factors, β-Klotho co-receptor, some biochemical indices and body composition in obese women on a weight-loss diet: a study protocol for a double-blind, randomized controlled trial. Trials 2019; 20. doi:10.1186/S13063-019-3421-5
[4] Jong CJ, Sandal P, Schaffer SW. The Role of Taurine in Mitochondria Health: More Than Just an Antioxidant. Molecules 2021; 26: 4913. doi:10.3390/molecules26164913
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[6] Kurtz JA, VanDusseldorp TA, Doyle JA, et al. Taurine in sports and exercise. J Int Soc Sports Nutr 2021; 18. doi:10.1186/s12970-021-00438-0
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[8] Rosa FT, Freitas EC, Deminice R, et al. Oxidative stress and inflammation in obesity after taurine supplementation: a double-blind, placebo-controlled study. Eur J Nutr 2014; 53: 823–830. doi:10.1007/s00394-013-0586-7
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[10] Carvalho MB de, Brandao CFC, Fassini PG, et al. Taurine Supplementation Increases Post-Exercise Lipid Oxidation at Moderate Intensity in Fasted Healthy Males. Nutrients 2020; 12: 1540. doi:10.3390/nu12051540
[11] Laakso M. Biomarkers for type 2 diabetes. Mol Metab 2019; 27: S139–S146. doi:10.1016/j.molmet.2019.06.016
[12] Chatterjee S, Khunti K, Davies MJ. Type 2 diabetes. Lancet 2017; 389: 2239–2251. doi:10.1016/S0140-6736(17)30058-2
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[14] Maleki V, Alizadeh M, Esmaeili F, et al. The effects of taurine supplementation on glycemic control and serum lipid profile in patients with type 2 diabetes: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Amino Acids 2020; 52: 905–914. doi:10.1007/s00726-020-02859-8
[15] Moludi J, Qaisar SA, Kadhim MM, et al. Protective and therapeutic effectiveness of taurine supplementation plus low calorie diet on metabolic parameters and endothelial markers in patients with diabetes mellitus: a randomized, clinical trial. Nutr Metab (Lond) 2022; 19: 49. doi:10.1186/s12986-022-00684-2

