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Impactos e estratégias para o combate da desinformação em saúde

Impactos e estratégias para o combate da desinformação em saúde

A desinformação compartilhada durante a pandemia de COVID-19 não apenas inundou as redes sociais, mas também teve impactos significativos nas ações das pessoas, comprometendo os esforços de saúde pública e até mesmo custando vidas. O compartilhamento de informações falsas, popularizadas como fake news, impacta diretamente no controle e no tratamento de muitas doenças, principalmente quando ataca o lado emocional de quem recebe as mensagens.

Uma investigação recente, baseada no relatório do Cirurgião-geral dos EUA, define desinformação como informações falsas, imprecisas ou enganosas, de acordo com as melhores evidências disponíveis no momento. Muitas vezes utilizam de textos científicos colocados fora de contexto para de alguma forma dar respaldo àquilo que é compartilhado.

Contudo, como controlar o disparo da desinformação ou como auxiliar a população a reconhecer essas falsas afirmações está sendo estudado pelo mundo todo. Neste artigo, traremos uma revisão sistemática que avaliou diferentes artigos científicos sobre o tema.

 

O vínculo entre desinformação e comportamentos arriscados

A pesquisa revela que a desinformação online influenciou as pessoas a adotarem comportamentos que aumentaram a transmissão e a mortalidade da COVID-19. A recusa em usar máscaras, a hesitação em se vacinar e a dependência de tratamentos alternativos ineficazes foram algumas das práticas prejudiciais alimentadas pela disseminação de informações enganosas.

Embora seja desafiador medir precisamente o impacto, algumas evidências indicam uma relação entre desinformação e a confiança na ciência. A desinformação não apenas mina a confiança pública na ciência, mas também é exacerbada por níveis preexistentes de desconfiança, muitas vezes relacionados à polarização política crescente. Essa falta de confiança, potencialmente ampliada pela desinformação sobre a COVID-19, complica os esforços para enfrentar futuros desafios de saúde pública, incluindo alterações climáticas e surtos de doenças.

 

Medidas adotadas e desafios enfrentados

Governos, autoridades de saúde pública e plataformas de redes sociais têm implementado diversas medidas para conter a propagação de informações enganosas sobre a COVID-19. No entanto, a eficácia dessas intervenções permanece relativamente desconhecida, uma vez que as plataformas de redes sociais são relutantes em compartilhar dados necessários para avaliações independentes.

Apesar desses desafios, uma revisão sistemática recente buscou identificar tipos de intervenções contra desinformação sobre a COVID-19 e avaliar sua eficácia. As intervenções incluíram a desmistificação (que expõem falsidades), correção de outros utilizadores (esforços entre pares que expõem falsidades) e inoculação passiva (ensinar as pessoas sobre a desinformação antes de serem expostas a ela), entre outras.

O estudo revelou que intervenções, como prompts de precisão, dicas de alfabetização midiática e rótulos de advertência, foram eficazes na melhoria dos hábitos de compartilhamento de informações. No entanto, alguns desafios foram identificados, incluindo baixos níveis de percepção de ameaça, educação e atitudes em relação à vacina.

 

Intervenções com resultados relacionados à saúde pública

Apenas 18% das intervenções abordaram medidas relacionadas à saúde pública. Entre essas, intervenções de inoculação passiva, desmascaramento e correção de usuários mostraram impacto na intenção de vacinação e em comportamentos preventivos.

A revisão destacou a necessidade de estudos de longo prazo, diversidade nas populações de amostra e consideração de intervenções em formatos visuais, como vídeos.

A análise dos resultados indicou desafios significativos na abordagem atual da pesquisa sobre desinformação em saúde. A falta de medidas de resultados consistentes, o foco predominante em populações dos EUA e a limitação de estudos a plataformas de redes sociais foram identificados como áreas críticas.

 

Recomendações para o futuro

Diante dos desafios identificados, a pesquisa faz recomendações cruciais para a pesquisa e as intervenções futuras no combate a desinformação em saúde:

  1. Inclusão de especialistas em saúde pública: a colaboração com especialistas em saúde pública no desenho de intervenções é fundamental. Apenas 18% das intervenções abordaram medidas relacionadas à saúde pública, indicando a necessidade de informações específicas desse campo.
  2. Desenvolvimento de medidas de resultados consistentes: a padronização das medidas de resultados é essencial para comparar intervenções. A falta de consistência na nomeação e medição de resultados dificulta a avaliação eficaz das estratégias.
  3. Expansão para intervenções em vídeos: com apenas 4% dos estudos utilizando vídeos, há uma urgência em explorar mais intervenções visuais. Considerando a popularidade crescente de plataformas de compartilhamento de vídeos, como YouTube e TikTok, isso é essencial para alcançar um público mais amplo.
  4. Cooperação global em testes de intervenções: a pesquisa deve expandir-se globalmente, superando a tendência de testar intervenções predominantemente em populações dos EUA. Além disso, a diversificação das plataformas de entrega, como serviços de mensagens, é crucial para abordar as preferências de comunicação em diferentes regiões do mundo.
  5. Investimento em pesquisas longitudinais: a escassez de estudos longitudinais indica a necessidade de investir em pesquisas que avaliem a eficácia das intervenções ao longo do tempo. Isso permitirá uma compreensão mais clara dos efeitos a longo prazo das estratégias adotadas.

 

Uma abordagem multifacetada no combate a desinformação

Não há solução única para combater a desinformação em saúde, especialmente em um ambiente de informação em constante evolução. A pesquisa e as intervenções devem ser adaptáveis e abrangentes, incorporando especialistas em saúde pública, medidas de resultados consistentes e estratégias diversificadas. Somente com uma abordagem multidisciplinar e global podemos enfrentar efetivamente os desafios impostos pela desinformação alavancada durante a pandemia de COVID-19 e ao que tudo indica deve persistir por um tempo.

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Referência

A Systematic Review Of COVID-19 Misinformation Interventions: Lessons Learned Rory Smith, Kung Chen, Daisy Winner, Stefanie Friedhoff, and Claire Wardle Health Affairs 2023 42:12, 1738-1746. https://doi.org/10.1377/hlthaff.2023.00717